Machinarium: uma nova forma de se fazer jogos

Posted on 15 ago 10 under jogos | No Comments

O primeiro jogo do tipo point-and-click que conheci foi Little Wheel, desenvolvido pela OneClickDog e ganhador do MTV Game Awards 2009. Inteiramente criado em Flash, Little Wheel me surpreendeu não apenas por sua notável simplicidade, mas também pela fácil jogabilidade promovida pela linguagem intuitiva com que fora criado e, sobretudo, pela excelente direção de arte, responsável pelo universo pálido e quase monocromático no qual a história se desenrola — além, é claro, da interessante trilha sonora composta por acordes inspirados no blues.

Machinarium, desenvolvido pelo estúdio tcheco Amanita Design, segue uma linha criativa semelhante, porém elevando toda a categoria dos browser games a um novo patamar. E o principal responsável por essa evolução é não somente o aprimoramento da linguagem — Machinarium é consideravelmente mais extenso do que Little Wheel — mas, principalmente, o surpreendente trabalho gráfico concebido por Adolf Lachman para ambientar a narrrativa que também transcorre em um mundo ocupado exclusivamente por máquinas, a maior parte delas antropomorfizadas.

Acertadamente, Machinarium não apresenta um minuto sequer de diálogos ou qualquer forma de texto (o que, inevitavelmente, me fez lembrar dos inesquecíveis 15 minutos iniciais de Wall-e). Toda a ação se desenrola a partir dos gestos e episódios que vão se desacortinando para o jogador à medida que o jogo avança. A propósito, este é outro grande êxito do game, já que só compreendemos o real sentido da história quando terminamos de jogá-la, algo que requer uma dose extra de atenção e, na maioria das vezes, de raciocínio lógico, ingredientes fundamentais para decifrar os enigmas que se colocam no caminho do protagonista, grande parte deles composta de puzzles clássicos como o famigerado Space Invaders, do Atari.

Disponível tanto para PC quanto para Mac, Machinarium pode ser adquirido por U$5 (menos de R$10!) até o dia 16 deste mês, juntamente com a fantástica trilha sonora do jogo.

Memória em preto e branco

Posted on 04 out 09 under cinema, livros & hqs | No Comments

Desde que comprei o volume completo de Persépolis, há alguns meses, vinha lendo-o aos poucos, como criança que mordisca chocolate pelas beiradas, para que o prazer de saboreá-lo devagar dure mais. A história, narrada e ilustrada pela própria autora, a iraniana Marjane Satrapi, não tem o lirismo de Retalhos, de Craig Thompson, nem o tom de fantasia da belíssima adaptação para o cinema, dirigida por Satrapi e Vincent Paronnaud. Aliás, como assisti ao filme bem antes de ler o livro – coisa que evito fazer sempre que posso, para não ser influenciado a construir meu universo literário análogo àquele explorado nos longas – tendo a considerá-lo ligeiramente melhor que seu corresponde impresso, talvez em função das acertadas escolhas dos diretores em privilegiar as partes mais “importantes” da vida de Marjane.

Crescida num país que foi se autodestruindo gradativamente após a derrota do Xá, em 1979 – época em que Satrapi contava 10 anos – por uma revolução popular que se converteu em ditadura islâmica, imposta por fundamentalistas xiitas, a vida de Marjane tornou-se um complexo emaranhado de conflitos, decepções e busca de auto-afirmação. Bisneta de um imperador do país, desde pequena ela foi incentivada a se tornar uma mulher emancipada e a não se curvar ao fanatismo religioso que feria seus princípios de esquerda e que, sobretudo, iam contra a cultura persa.

Como a narrativa obedece à memória da autora, freqüentemente os fatos narrados não obedecem a uma lógica cronológica muito precisa – portanto, grandes saltos no tempo e lacunas são constantes no decorrer da história. Além disso, a primeira parte do livro é aquela que talvez seja a mais tocante, já que é sempre interessante conhecer a ótica de uma criança exposta a uma realidade tão hostil e repressora quanto aquela que Marjane se viu obrigada a abandonar após a decisão definitiva de se mudar para a França.

No fim das contas, tanto o livro quanto o filme tornam-se complementos um do outro: o primeiro submetendo-nos à acidez do olhar de uma jovem que enfrentou percalços inenarráveis em busca da própria identidade; o segundo oferecendo-nos o toque de poesia e esperança sem os quais viver se torna insuportável.

Retalhos de uma vida iluminada

Posted on 19 set 09 under livros & hqs | No Comments

Foi depois de ler Watchmen que eu me tornei fã de história em quadrinhos de verdade. Até então, eu achava que isso era coisa de nerd que usa camisa xadrez e óculos com lentes do tipo fundo de garrafa. E como geralmente acontece quando eu me deparo com uma obra de alto nível como a de Alan Moore e Dave Gibbons, fico pensando que dificilmente outro autor conseguirá superá-la. Mas vez ou outra também acontece de eu levar uma merecida rasteira, e me ver obrigado a rever meus próprios conceitos.

Foi mais ou menos isso que revivi ao terminar de ler as quase 600 páginas de Retalhos, nas poucas horas em que me desliguei da Matrix e fui sugado pelo texto singelo e pelo traço certeiro de Craig Thompson. O livro foi lançado em maio deste ano pela Quadrinhos na Cia., mas já merece todos os elogios que a crítica especializada (e a não especializada também) pode tecer sobre uma obra que rompe paradigmas, tornando-se um dos melhores romances gráficos já produzidos no gênero.

A narrativa é uma incursão para o interior do baú de memórias do autor, de sua infância oprimida numa cidadezinha conservadora do interior dos Estados Unidos, até o início de sua vida adulta, quando ele decide recusar as imposições religiosas e enfrentar o conservadorismo da família para fazer a escolha mais acertada de sua existência: entregar-se à arte de ilustrar.

Em diversas páginas tive a impressão de estar diante da minha própria história, principalmente no trecho em que Craig se farta dos desenhos e num surto de raiva queima tudo o que criara até então, sem saber que estava tentando apagar justamente o que o tornava único em comparação às outras pessoas – algo que, confesso, também levei tempo para descobrir.

No fim das contas, Retalhos acaba se tornando uma mistura de recordações, traumas e confidências, mas, sobretudo, uma bela e poética estratégia de libertação.

Quem vigia os vigilantes?

Posted on 04 out 08 under livros & hqs | No Comments

Se você é do tipo de pessoa que tem preconceito contra história em quadrinhos, aqui vai um conselho: leia Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons, Via Lettera, 120 pág.). Se a alienação ainda não tiver consumido parte da sua massa cinzenta (é isso que acontece com quem assiste a coisas do tipo Malhação, Caminhos do Coração ou o programa da Márcia Goldschmidt), sua desconfiança quanto a esse gênero incompreendido mudará radicalmente depois de lê-lo.

Pra começo de conversa, Watchmen definitivamente não é história pra criança. Portanto, se revistas impressas com tinta de mamão com açúcar é o que lhe enche os olhos, talvez A Turma da Mônica Jovem seja uma boa alternativa. Porque o impacto causado por um livro (sim, a meu ver, trata-se de um livro) cujo início é a narração de um personagem que se deparou com “um cão morto com marcas de pneu no ventre rasgado” é equivalente a um soco no estômago. Por isso ele não deve ser lido inadvertidamente, como quem lê revista de fofoca na sala de espera do dentista.

Escrito por Alan Moore (responsável pelo brilhante V de Vingança) e ilustrado por Dave Gibbons, Watchmen foi originalmente publicado em 1985. Este é, a propósito, o ano em que transcorre a narrativa, construída num cenário nova iorquino hostil, pessimista e soturno, no qual super-heróis são personagens “comuns” e outrora necessários para purgar a cidade do crime e da auto-destruição.

O mote do enredo é o assassinato, até então inexplicado, de um justiceiro conhecido como Comediante. Enquanto busca pistas que possam levar ao(s) culpado(s) pelo crime, Rorshach, um dos poucos vigilantes que permanece na ativa depois que a atividade caiu no descrédito, nos hipnotiza com o texto ácido que jorra das páginas do seu diário. Ao mesmo tempo, nos aproximamos de mais uma dezena de personagens igualmente complexos e vacilantes, como o poderoso Dr. Manhatan, Coruja e Laurie.

Se a irrepreensível união da escrita hábil de Moore ao traço certeiro de Gibbons já era motivo suficiente para considerar Watchmen uma obra acima da média (basta prestar atenção nas técnicas de narração paralela,  na sobreposição de eventos e nos efeitos cinematográficos), a introdução da biografia do Coruja na história (os únicos momentos em que nos deparamos com parágrafos discursivos por todo o volume) confirma de vez o título da série como romance gráfico.

Eu já não vejo a hora de ler os outros três volumes, sem contar o filme, que tem estréia prevista para o ano que vem, pelas mãos de Zack Snyder (de 300).